LEITURA: DA TEORIA PARA A PRÁTICA EM SALA DE AULA

(Elementos de Pedagogia da Leitura- Ezequiel T. da Silva – Editora Martins Fontes)

Desenvolvimento de interesses por Leitura

Atmosfera para leitura em sala de aula

Materiais apropriados de leitura

“Iscas” para chamar a atenção das crianças

Ênfase na leitura compreensiva/significativa

Envolvimento das crianças

Leitura em voz alta pelos alunos

Leitura independente/espontânea

Trabalhos/projetos de pesquisa

Dando mais vida às leituras

 

LEITURA: DA TEORIA PARA A PRÁTICA EM SALA DE AULA

“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto; que as pessoas não estão sempre iguais,ainda não foram terminadas-mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”

(João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.)

 

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Desenvolvimento de interesses por Leitura

·  A leitura, enquanto um processo que atende a diferentes propósitos precisa ser claramente “mostrado” às crianças em função das aprendizagens que ocorrem por imitação da pessoa adulta. Muitos dos hábitos das crianças são uma decorrência da imitação dos hábitos dos adultos. Por isso mesmo, em situações bem visíveis aos alunos (na frente da sala de aula, na sala dos professores, no corredor, etc....), pode-se ler e discutir um livro que está em voga, jornais, revistas, etc..., mostrando, concretamente, que você – professor- convive com materiais escritos.

·  Fazer com que o amor aos livros se transforme, esporadicamente, no tema central das conversas em sala de aula. Não forçar ou burocratizar essa conversa, mas falar informalmente sobre elementos do mundo da escrita: livros, autores, ilustradores, poetas, etc...., solicitando a participação (opiniões, comentários, avaliações) da classe.

·  Transformar o livro (em si) no tema de discussão da classe: tamanho, ilustrações, parte de dedicatórias, tipos gráficos, tipo de capa, etc... Em caso de livros mais antigos, adicionar dados históricos sobre reimpressões, traduções, adaptações, etc...Adicionar uma comparação entre o veículo “livro” e outros meios de comunicação (rádio, TV, cinema, etc.).

·  Compilar textos infantis (livros, revistas, recortes de jornais, etc.) relacionados com os eventos do calendário escolar ou com temas de interesse da classe e formar acervos específicos. Usar esses acervos por ocasião dos eventos ou festejos no sentido de aumentar a curiosidade e a compreensão das crianças. O professor poderá ler em voz alta alguns desses textos (10 a 15 minutos), deixando que os alunos os comentem ou estabeleçam pequenos projetos de pesquisa sobre o assunto. Ir aumentando os acervos de ano para ano com as contribuições e/ou trabalhos das crianças. Em pequenos grupos, as crianças podem partilhar o que leram sobre o assunto.

·  A partir da análise de personagens centrais (ou secundárias) de um só romance ou de diferentes romances lidos, propor a discussão e o aprofundamento de conceitos amplos, como liberdade, coragem, democracia, trabalho, medo, miséria, etc.

·  Poemas completos ou trechos de poemas, bem colocados dentro de uma situação ou unidade de trabalho, podem se transformar em excelentes meios para apresentar o assunto ou estimular interesses. Aproveitar sequência do currículo e/ou acontecimentos do dia-a-dia para acionar esse procedimento. É certo que o professor deverá ter um bom repertório para estabelecer essas relações e, assim, estimular as crianças a fazerem o mesmo.

·  Leitura coletiva ou em pequenos grupos, silenciosa ou em voz alta (um aluno lê para os outros). O restante do grupo, neste caso, vai interpretando, estabelecendo implicações, aprofundando as idéias do texto em função de suas experiências pessoais; segue-se debate geral na classe para a sistematização das conclusões sobre o tema em questão. Se possível, apresentar textos diferente aos grupos, mas que versem sobre o tema em discussão.

·  Leitura em voz alta pelo professor – Os professores têm uma séria responsabilidade e um gostoso privilégio de incentivar o gosto pela leitura através da leitura em voz alta para as crianças. De fato, ninguém resiste a uma história bem contada ou mesmo a um texto informativo que seja estimulante e bem selecionado. Ao ouvir os textos lidos em voz alta, as crianças vão criando consciência dos aspectos da expressão escrita e, ao mesmo tempo, menor relutância para se auto-exprimirem. Sugestões:

- ler o mais frequentemente possível (diariamente);

- mostrar que você, professor, também aprecia o texto lido, conversando sobre o tema, escritor, ilustrações, trechos instigantes, a origem do autor, os porquês da história, etc...- tais aspectos são de fundamental importância para situar o contexto do texto e têm especial relevância para as crianças;

- no momento da leitura, criar um ambiente de relaxamento e descontração, com as crianças se acomodando em círculo ou sentados no chão. Caso a escola possua um jardim ou área de lazer, levar as crianças para lá a fim de fruir as histórias lidas;

- apresentar aos jovens uma variedade de histórias e gêneros literários, discorrendo sempre sobre os autores, a gênese do assunto e estimulando comentários e discussões depois das sessões de leitura;

- ler contos de fadas que apresentem diferentes versões. Personagens diferentes ou finais diferentes podem estimular comparações por parte das crianças, facilitando o pensamento intuitivo e imaginativo;

- depois de várias sessões de leitura em voz alta, o professor pode solicitar que os jovens dramatizem histórias que eles mesmos selecionaram ou escreveram.

Importante: A leitura em voz alta, seja ela feita pelo professor ou pelo estudante, deve ser preparada (ensaiada) previamente, na medida em que seus mecanismos são diferentes dos da leitura silenciosa. A conseqüência da não-preparação prévia poderá ser inibição e frustração da criança.

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Atmosfera para leitura em sala de aula

·           As crianças lêem quando os textos apresentam significados para elas.

·           Leitura silenciosa – fundamental que os professores planejem sessões de leitura silenciosa em sala de aula, como parte da seqüência curricular. Fazer desse procedimento uma prática constante (por ex., uma hora por semana, em dia específico ou salteado, fazer leitura silenciosa em classe).

·           Com os jovens, criar (encontrar materiais e decorar) um “Cantinho da Leitura” em sala de aula. Prateleiras à altura das crianças, cadeiras, pequeno tapete, etc....podem compor esse AMBIENTE. Deixar que os alunos fiquem à vontade para ler. Ir renovando o acervo de materiais quinzenalmente ou mensalmente, com livros e revistas de interesse das crianças.

Importante: Arejamento e iluminação da sala de aula são elementos que devem ser lembrados pelo professor quando da criação do “Cantinho da Leitura”.

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Materiais apropriados de leitura

Com a sala devidamente preparada para o conforto e relaxamento nas atividades de leitura, é necessário providenciar uma variedade de materiais de leitura, renovando-os constantemente. Ninguém pode gostar de algo que não teve a chance de experimentar e partilhar...

·  Apresentar aos estudantes muitos livros e textos que eles possam ler e compreender. Livros didáticos, paradidáticos, literários, revistas, jornais, etc... da escola, de sua biblioteca pessoal, da biblioteca pública, etc... podem compor um acervo de classe, que seja de fácil acesso e manuseio pelas crianças.

·  Proporcionar às crianças o acesso a livros suplementares para a leitura de lazer, discussões em grupo, leitura-prazer. Em sala de aula, usar livros de capa mole, livros de capa dura, artigos de jornal, revistas, dados de meteorologia - quaisquer materiais extras que não reduzam a leitura das crianças somente à do livro didático. O acesso ao mundo dos livros, agilizando prática constante, é de fundamental importância à formação do hábito de leitura.

·  Boas revistas podem ser usadas como material suplementar de leitura em sala de aula. Caso você seja assinante de uma ou mais revistas semanais, levar exemplares para a sala de aula, deixando-as em local visível às crianças de modo que possam ser manuseadas e lidas. Artigos de ciências e estudos sociais podem interessar aos jovens. As crianças gostam de folhear revistas e partilhar com os colegas os artigos de interesse.

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“Iscas” para chamar a atenção das crianças

Em que pese a quantidade e a qualidade de textos disponíveis às crianças, geralmente uma atividade inicial motivadora ou um jogo serve de incremento à leitura.

·  Quando entram na sala de aula, as crianças lêem a “Mensagem do Dia” (ou da Semana ou do Mês), especialmente escrita para elas. A leitura pode tornar-se mais atraente quando os professores escrevem mensagens para as crianças.

·  Remeter pequenas mensagens pessoais (diariamente ou semanalmente) para as crianças. A mensagem pode solicitar que a criança faça uma pesquisa sobre determinado assunto ou pode ser uma notícia anunciando um novo livro (à venda ou disponível na biblioteca). Todos nós gostamos de surpresas!

·  Para dar mais sabor ao programa de leitura, escrever em cartolina e afixar na porta da sala enigmas ou piadas. Tais iscas atraem a atenção das crianças. Quem encontrar a resposta (um ou mais alunos), tem o seu nome afixado/escrito no espaço em branco do cartaz.

·  “De onde elas vieram?” Esta pergunta, colocada sobre gravuras ou ilustrações ampliadas (semelhantes àquelas que aparecem nos livros), leva as crianças a um processo de interrogação e busca. Depois de encontradas as fontes, o professor pode fazer algumas perguntas sobre as ilustrações e levar a criança à leitura do livro.

·  Novos títulos podem ser colocados num quadro mural, com um breve resumo sobre o conteúdo do livro. O professor lê os resumos em voz alta para ver quem se interessa pela leitura dos novos livros.

·  Para introduzir as crianças na área da função da ilustração em literatura infantil, preparar uma pequena mostra (com um “pôster”) centrada num determinado ilustrador. Desenhar no pôster os personagens do ilustrador. Exemplares dos livros, incluindo aqueles que já foram lidos para as crianças, são colocados ao redor desse “pôster”. Pronta a mostra, discutir o significado das palavras “ilustração” e “ilustrador”, analisando as ilustrações de diferentes livros. Sem dúvida que as ilustrações atraem a atenção das crianças e ajudam a contar uma história. Ler em voz alta uma história que foi ilustrada e sugerir que as crianças leiam outras do mesmo ilustrador.

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Ênfase na leitura compreensiva/significativa

É importante que as crianças discutam e assumam os propósitos para diferentes tipos de leitura, e que todos eles tenham como base a compreensão (maior ou menor) do texto.

·  Através de discussões com as crianças, explicitar os porquês das diferentes práticas de leitura em sala de aula. O propósito da leitura encaminha o tipo de abordagem dos textos (informativa recreativa ou de estudo).

·  Como facilitação e incremento da compreensão de um texto, o professor poderá planejar as seguintes atividades:

- de enriquecimento: preceder a leitura do texto com filmes, slides, mostras, excursões, estudo do meio;

- de orientação: preceder a leitura em voz alta por uma leitura silenciosa em grupo, seguida de algumas questões sobre o conteúdo do texto;

- de suplementação: fornecer textos complementares para incentivar a independência e a fluência dos leitores. Os textos suplementares devem ter uma ligação direta ou indireta com o conteúdo ou tema de discussão e estudo.

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Envolvimento das crianças

A iniciativa e o fazer das crianças devem ser acentuados, individualmente ou em situações de grupo.

·      Professor e/ou alunos gravam histórias em fita cassete para serem ouvidas em classe. Pode-se pensar numa mesa de audição com fones de ouvido – assim, a criança pode seguir o texto enquanto ouve ou pode somente ouvir as histórias que foram gravadas. A gravação pode ser seguida de perguntas como “O que você mais gostou nesta história?”, “Faça um desenho daquilo que você mais gostou nesta história” ou outras semelhantes. Rimas, contos de fada, história do folclore, etc... podem ser gravadas para dar mais sabor à leitura.

·      Filmes, direta ou indiretamente ligados a um livro a ser lido ou proposto, podem anteceder ou suceder a uma atividade. Solicitar que as crianças façam comparações e contrastes.

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Leitura em voz alta pelos alunos

·      Atribuir um tempo (10 a 20 minutos da aula) para leitura livre. Deixar que a criança escolha e leia um trecho de um livro que leu, sem fazer nenhum tipo de pressão. Inicialmente, uma vez por semana; ir aumentando a freqüência conforme o envolvimento das crianças. O trabalho de leitura em classe deve ser previamente preparado pela criança de modo que a inibição seja vencida.

·      Troca de papéis: deixar que a criança seja o professor, leia em voz alta e partilhe livros com o restante da classe.

·      Quando as crianças trouxerem livros para a formação da biblioteca de classe, perguntar quem deseja ler um trecho do livro em voz alta. Se o número de voluntários for grande,escrever os nomes na lousa e fazer um cronograma de apresentações.

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Leitura independente/espontânea

A leitura espontânea, pessoal e selecionada pela criança é de fundamental importância para a formação do hábito. Deve necessariamente existir abertura e oportunidade para que a criança leia livros de seu interesse. A escolha pessoal de livros deve ser incentivada, ainda que o professor possa orientar recomendar e até, mesmo sugerir textos, quando solicitado.

·  Utilizar acervos rotativos, emprestados das bibliotecas (escolares, públicas, etc...), equivalentes ao número de crianças de uma determinada série. Fornecer um livro para cada criança (se possível, deixa-las escolherem), juntamente com uma folha de registro. O livro permanece com a criança durante uma semana e depois é trocado com o de outra criança.

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Trabalhos/projetos de pesquisa

Atividades de leitura independente podem ser introduzidas juntamente com projetos de pesquisa. Questões bem formuladas podem desafiar a curiosidade da criança e aumentar o seu desejo de ler e descobrir por que, como, quem, onde. Um cartaz na sala de aula pode ser usado para indicar o núcleo da pesquisa ou unidade de trabalho.

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Dando mais vida às leituras

·  Dramatizar trechos dialogados de uma história, deixando de fora os “disses”.

·  Para relatar uma determinada história, se vestir como a personagem principal o mais semelhantemente possível. A criança, ao relatar, assume as características da personagem, fornecendo e vivendo os seus sentimentos e reações.

·  Teatro de bonecos ou de marionetes ou de figuras no flanelógrafo. A leitura da história pode ser gravada pelos professores ou pelas crianças.

·  Dramatizar, espontaneamente ou com ensaios, contos que foram lidos. Fazer uma sessão de teatro, dividindo a classe em grupos de 5 a 7 para dramatizar uma mesma história(mostrando a interpretação do grupo) ou histórias diferentes. Comentar as apresentações, destacando pontos positivos e negativos.