SOCIOLOGIA

Os seres humanos transformam a sociedade

 

Quais foram as transformações sociais que ocorreram quando nossos ancestrais, na pré-história, descobriram a técnica de produzir o fogo? Tornaram-se sedentários e criaram utensílios? As relações do grupo não se modificaram? Claro que sim. As maneiras como os seres humanos vivem em sociedade, isto é, a maneira como produzem seus alimentos e como moram, interferem profundamente na maneira como se relacionam. É possível ver isto ao longo da história. Com o passar do tempo, as relações sociais, políticas. Econômicas, culturais e ideológicas sofreram alterações.

Vejamos um exemplo. Nas fases iniciais da formação da sociedade humana, a natureza dos vínculos construídos entre homens e mulheres dava-se em termos de necessidades econômicas, políticas e sociais de determinado grupo social. Na maior parte das comunidades, os bens estavam dispostos segundo as habilidades e atribuições de cada membro do grupo. Desta maneira as mulheres possuíam a casa e todos os utensílios, e os homens possuíam as armas para a caça e para a defesa. Mas o importante é que estes dois mundos – o da casa e o da rua – não eram excludentes. Ninguém era mais importante porque tinha as armas. É possível afirmar que estes dois mundos não eram excludentes porque a sobrevivência do grupo dependia, no mesmo grau, tanto da casa quanto das armas. A hierarquia na importância das tarefas só iria aparecer tempos depois. Desta maneira podemos ver como a vida dos seres humanos transforma o lugar em que vivem e como vivem.

Os t6eoricos clássicos da Sociologia procuram compreender como as relações se alteram e quais são os impactos sobre a vida em sociedade.

 

Como organizar a vida em sociedade?

 

Os séculos XVIII e XIX foram significativos para o surgimento da sociologia como ciência. Mas o que nestes dois séculos foi tão importante? A Revolução Francesa, com a constituição da república, e as revoluções que ocorreram na Inglaterra, com a criação do motor a vapor e do motor à combustão. Como vimos anteriormente, valores, costumes, hábitos e crenças das sociedades alteraram-se significativamente. As relações econômicas, políticas, culturais e sociais ganharam uma nova dimensão. Imagine as mudanças na vida das pessoas que antes da Revolução Francesa dependiam totalmente de um senhor. Com a república, as pessoas passaram a ser cidadãos com responsabilidades pelo funcionamento da cidade, pelo menos teoricamente. E depois das revoluções na Inglaterra? De camponeses que trabalhavam a terra com suas próprias ferramentas, essas pessoas passaram a ser operários da fábrica que, sem ferramentas, só lhes reatava vender a força de trabalho a um patrão. Foram mudanças muito fortes, e tudo isso repercutiu drasticamente na maneira como as pessoas viviam e como se relacionavam uma com as outras.

As sociedades foram transformando-se em estruturas muito complexas e para isso era necessário que existisse uma ciência capaz de entender o que se passava.

 

Mundo novo? Para quem?

Sem sombra de dúvidas, as transformações econômicas, políticas, culturais e sociais proporcionaram avanços significativos para a vida em sociedade. Todas as ciências evoluíram muito com o desenvolvimento da industrialização, aprimorando técnicas e instrumentos para facilitar nossas vidas. Mas tudo isso aconteceu para beneficiar todas as pessoas? È aí que as coisas complicam.

Mesmo com todos os fantásticos avanços, um número crescente de pessoas não pode experimentá-los nem usufruí-los. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a agricultura (FAO), o número de pessoas subnutridas no mundo, em 2007, chegou a 925 milhões. Outro dado muito importante foi apresentado pelo relatório da ONU em 2008: “Aproximadamente dói bilhões e meio de pessoas, quase a metade da população do mundo em desenvolvimento, vive sem serviços de saneamento básico”.

Augusto Comte, pai da Sociologia, dizia que era necessário ter muito cuidado com os extremos entre pobreza e riqueza. Quando existe um abismo muito grande entre alguns poucos muito ricos e uma multidão de pobres, a sociedade tende à desorganização. Por isso preocupou-se em estabelecer a relação entre ordem e Progresso. Dizia ele que não existe ordem sem progresso e que não existe progresso sem ordem. Se usarmos das reflexões de Augusto Comte, é possível questionar sobre o que acontece na Somália. Por que há violência extrema dentro do próprio país e por que um grupo somali atua como piratas, seqüestrando navios para pedir resgate? Augusto Comte olharia para aquela realidade e diria: quando a sociedade chega a produzir a extrema pobreza para a maior parte da população, os valores de solidariedade e respeito enfraquecem-se.

Mas essa miséria será fruto da incompetência de cada individuo? Cada pessoa é responsável pela miséria extrema em seu país? Karl Marx dirá que não. A miséria, a violência e a ausência de solidariedade são produtos do modelo de sociedade que se desenvolve historicamente e das relações de poder econômico e político que se estabelecem.

O que diria Max Weber de tudo isso? Poderíamos fazer um exercício reflexivo com os Tipos Ideais de Dominação, tão bem formulados por ele, e pensar que a maior dos paises desenvolvidos (principalmente os Estados Unidos e alguns paises da Europa) exerce relações de poder e dominação com fortes características tradicionais, mesmo que estejamos no século 21. O que isso quer dizer? Bom, Weber define uma dominação tradicional como aquela “cuja legitimidade assenta e colhe créditos na santidade de ordenações e poderes de senhorio transmitidos e aceitos desde tempos remotos”.

 

O poder egoísta

 

Mesmo que o mundo, hoje, se apresente significativamente evoluído, com todos os avanços tecnológicos, as relações entre países ricos e países pobres, na pratica, ainda apresentam características marcadamente tradicionais. È, de fato, uma mescla entre um mundo desenvolvido e um mundo que ainda mantém relações de poder antigas. Alguns governantes acreditam ter poderes maiores que os outros e, por isso, desrespeitam as regras estabelecidas por cada país ou até mesmo as regras estabelecidas por órgãos internacionais, como é ocaso da Organização das Nações Unidas (ONU) resolveram, em virtude da miséria extrema de muitos países da África, destinar 0,7% de seu Produto Interno Bruto para assistência da África até 2015, assim como destinar de 0,15% a 0,20% do Produto Interno Bruto aos países menos adiantados. Assim diz o relatório da ONU: “Instamos aos países desenvolvidos que ainda não o fizeram que realizem um esforço concreto neste sentido de estabelecer conformidade com seus compromissos”. 

Como o próprio documento afirma, alguns países desenvolvidos não respeitam as decisões acordadas e, ainda mais, promovem ações que desestabilizam as regiões mais pobres do planeta. O relatório da ONU aponta para este desrespeito afirmando que “os gastos de assistência estrangeira dos países desenvolvidos reduziram-se pelo segundo ano consecutivo em 2007 e existe risco de que não alcancem os compromissos assumidos em 2005”.

O desrespeito das regras construídas democraticamente entre os países que constituem a ONU é uma expressão da vontade egoísta e personalista de alguns países. Este desrespeito às regras instituídas só faz agravar a situação, já insuportável, de milhões de pessoas no mundo. Dá para ver como as coisas se relacionam? Aqui utilizamos três escolas sociológicas para entender a realidade da miséria do mundo e seus efeitos.

É claro que a Sociologia não estuda somente a miséria. Ela é uma ciência que estuda os fenômenos e produz o conhecimento e a explicação dos fenômenos culturais, políticos, econômicos e nos possibilita interpretar a realidade em um mundo em constante transformação.

 

PARA DEBATER

 

1-     O que diz para você a expressão “Ordem e Progresso”? Este lema de nossa bandeira é uma realidade na vida dos brasileiros?

2-     Quais as causas (as raízes mais profundas) da miséria e da desigualdade social?

3-     Como são as pessoas numa sociedade onde prevalecem relações de poder e dominação?

PCOP de História: Vicente de Souza Moura